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A Nightingale Sings

(O Rouxinol Canta)

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23.05.20

Azulejos do Convento do Pópulo


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Numa visita organizada pelo Municipío de Braga, em 2014, tive oportunidade de aprender mais sobre a Igreja do Pópulo e de ficar a conhecer os azulejos da escadaria nobre. Tanto a Igreja como o edifício do Convento do Pópulo estão classificados como Imóveis de Interesse Público.  A igreja mantém o culto e o que chegou aos nossos dias do edifício do Convento é utilizado pela Câmara Municipal de Braga.

O Convento e a Igreja foram construídos por ordem do Arcebispo Frei D. Agostinho de Jesus, de modo a criar um local digno para a sua sepultura, assim como evocar um dos cultos que este homem conhecera em Roma, onde havia estado, nomeadamente o culto da Nossa Senhora do Pópulo (Populim - povo). A construção teve início em 1596, mas o que chegou aos nossos dias foi já um edifício que sofreu várias alterações, sobretudo nos sécs. XVIII e XIX, no que toca ao Convento. Este serviu já de quartel militar da infantaria a partir de 1834, com a extinção das ordens religiosas em Portugal.

 

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Os azulejos da escadaria nobre foram restaurados pelo Município de Braga. Terão sido feitos no século XVIII, sendo de estilo barroco e monocromáticos, ou seja, apenas pintados de azul. De acordo com o Turismo Porto e Norte, o tom azul cobalto é sinal de que estes azulejos terão sido feitos durante o "Ciclo dos Mestres", o que contudo não nos permite identificar em concreto o autor destes azulejos. É certo que Gabriel del Barco fez azulejos para a Igreja de São Victor, e António de Oliveira Bernardes trabalhou em Braga, pelo menos nas cenas da vida de São Pedro de Rates, embora lhe seja atribuída a autoria de outros azulejos pela cidade. Com este trabalhava o filho Policarpo de Oliveira Bernardes, que assina um trabalho perto, em Viana do Castelo.

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O tema dos azulejos é a meditação contemplativa e a representação dos Monges Agostinhos (que ocupavam este Convento na época) em cenários bucólicos (Turismo Porto e Norte). Duas características interessantes dos azulejos feitos no período barroco é a anamorfose, ou seja, a criação de de imagens distorcidas que no caso serve para criar uma falsa perceptiva tridimensional, e a adaptação do desenho ao espaço onde o azulejo irá ser colocado, sendo mais perceptível no caso das escadarias.

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Em relação à anamorfose, vemos que este azulejo tem vários edifícios por detrás dos dois monges do plano principal. Se atentarmos no pequeno edifício ao fundo, à esquerda do monge de capuz, vemos que as formas do edifício estão distrocidas. Isto serve para criar uma perspectiva tridimensional num plano bidimensional. Olhamos para um painel de azulejos, mas parece que o cenário se "estica" para trás.

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Em relação à adaptação do desenho ao espaço, os artistas que desenhavam e pintavam o azulejo no período barroco tinham a preocupação em saber em que espaço o painel ia ser colocado e qual o propósito. Assim, ainda hoje conseguimos perceber que os azulejos não foram feitos ao acaso, foram mesmo pensados para aquele lugar, para aquele contexto. É por demais evidente em casos em que surge uma porta falsa ou uma janela falsa pintada (mais visível em igrejas), porque o barroco procura a simetria, pelo que numa parede onde não haja uma janela ou porta para fazer simetria, cria-se uma em azulejo. Outro exemplo, e que nos volta para estes azulejos em concreto, é o caso dos azulejos que se colocam em escadarias (sejam estas ou até as de uma casa de família): o desenho é feito na diagonal, de modo a que a pessoa que esteja a subir as escadas veja os desenhos como não estando tortos. Na foto de baixo eu tirei a fotografia na horizontal, como se este painel não estivesse numas escadas, mas sim numa parede, para que possam ver:

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Assim, no ponto de vista de quem passa pelas escadas, o desenho não fica "torto" (é mais evidente quando se sobe). Se mudássemos os azulejos para uma parede e os colocássemos na horizontal, as figuras iriam parecer que estavam "a cair" (é possível ver isso nos azulejos colocados à entrada do Tesouro Museu da Sé de Braga, de umas cenas de caça, pois foram transferidos de escadas e colocados numa parede, na horizontal.

A Câmara Municipal de Braga permite a visita livre ao espaço, contudo disponibiliza também visitas guiadas, caso assim o deseje. Pode obter mais informação aqui.

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Pode ver mais fotos sobre este espaço através da visita virtual proporcionada pelo Município de Braga aqui.